Arquivo da categoria: agora falando sério…

freio de arrumação, como diz meu pai

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Fase: voltando a vida ao normal.

Ainda me sinto perdida com a ausência do stress, mas agora ando a dedicar meu tempo livre aos pequenos prazeres domésticos:

1) arrumando a casa (tem tanto a fazer que acho que não consigo nem começar direito)

2) voltando a ser gente (fazer as unhas, por exemplo, voltar aos exercícios, passear com  o cachorro, trocar os óculos e voltar a usar lente de contato)

3) encontrando mais os amigos (se bem que loulou tá meio sem tempo, mas ainda consegui ver Dani Arrais no domingo! :*)

4) voltando a cozinhar!!!!!!!!!

5) passando mais tempo de qualidade com família (principalmente com mari e as crianças)

e, como ninguém é de ferro,

6) começando a pensar em matutar sobre os novos projetos!!

prontofaleiacabou

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Depois de meses na mais absoluta reclusão, cercada unicamente de livros e preocupações, depois de metade do meu cabelo cair de stress, depois de me tremer de cima a baixo pra fazer a prova oral, bem, voltei à vida, passei no concurso, e agora tudo pode voltar ao normal. até que tudo mude novamente, e eu tenha que me adaptar. achei que a sensação de dever cumprido fosse me relaxar mais, mas a verdade é que quando você passa muito tempo num nível de stress tal, demora mesmo pro corpo, e principalmente pra cabeça, voltar ao normal. no dia seguinte ao resultado acordei às 5 da manhã, como se ainda tivesse que estudar. ainda pego um romance pra ler e me sinto culpada e cansada, e logo o ponho de lado pra fazer alguma coisa “mais útil”. meu marido diz que estou viciada em stress, o que, francamente, acho que é verdade. se alguma coisa não estiver me preocupando, eu arranjo logo logo um problema pra resolver.

mas quando eu me lembro de todo o caminho que percorri, o alívio é maior que a felicidade. nem quero festejar. e eu só quero silêncio, silêncio, silêncio. só quero poder dormir. só quero poder trabalhar. só quero poder ficar com minha família, sem ter que me desculpar. só quero almoçar com meus amigos. só quero ser eu mesma, porque esse – essa fidelidade – é o título que eu mais almejo.

big thirties

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Há uma semana eu venho carregando os 30 nas costas. Nas últimos meses eu vinha pensando muito em todo o processo de fazer 30, os marcos, os medos, e, especialmente, a pressão. Fazer trinta não é como fazer 29, em que você ainda pode jogar alguma parcela de culpa das besteiras que faz em cima da “juventude”. Aos 30, esperam de você um mínimo de sabedoria (ainda que fajuta). Aos 30 as mulheres começam a se desesperar com a vaidade, porque não basta mais só cortar a sobremesa pra emagrecer e caber na calça jeans (todas entram na academia, na ioga, na dermatologia, na maquiagem boa).Aos 30 você tem que estar casa(n)do, e com planos imediatos de filhos. Aos 30 sua carreira tem que estar definida, sua conta bancária equilibrada e suas férias na europa minimamente gozadas.

Comecei a tensão dos 30 pensando em tudo isso aí de cima que eu não fiz ou não tenho. Tenho 30 anos e não tenho um corpão (nunca tive, talvez a partir de agora venha a ter, se eu dedicar 15 horas do meu dia a isso). Tenho 30 anos e faço (principalmente falo) merda. Tenho 30 anos e não tenho filhos assim, naturalmente meus (e passei os últimos anos pensando sobre isso). Tenho 30 anos e minha carreira (o que é isso mesmo?) tá mais indefinida que final de campeonato brasileiro. Tenho 30 anos e não passo férias na europa. Também não escrevi livro, embora já tenha plantado uma árvore (que acho até já foi derrubada).

Na realidade, eu até queria escrever alguma coisa pra marcar esse momento tão cabalístico, sei lá, tem gente que faz poema, música, faz sessão de fotos, festão. Eu fiz foi muita terapia, pra poder me dar de presente minha inteireza.

É que eu sempre erro, olhando o copo vazio. Meu fazer 30 anos poderia até ser um desastre, se não fosse a parte cheia do copo: tenho 30 anos e sou FELIZ (assim, em caps lock) no amor (vários ex- namorados e ex-marido na mochila), tenho 30 anos e comprei este ano o meu apartamento (vamos lá, pagando ainda alguns pedaços), tenho 30 anos e tenho um emprego que adoro, tenho 30 anos e tenho dois enteados lindos e inteligentes e carinhosos, tenho 30 anos e tenho os melhores irmãos do mundo, tenho 30 anos e minha conta bancária vive equilibrada, tenho 30 anos e pela primeira vez entrei em uma joalheria, apontei pra uma peça e disse “vou levar”. Tenho 30 anos e durmo toda noite com o homem que eu amo e que eu escolhi pra dormir comigo toda noite. Ah, desculpa, já tinha falado nisso.

O resultado da equação é que é muito melhor ter 30 e estar na briga do que ter 20 e viver esperando o momento em que a vida finalmente vai chegar. A vantagem da mudança de dezena é essa: a certeza de que a vida chegou e é essa mesmo e que é melhor se preocupar com o que vestir (passa a ficar feio se vestir como alguém de 16, né?).

E – porque copo somente cheio ainda é pouco, bom mesmo é quando transborda – dei um passo extra e fiz 30 anos e comprei um cachorro. Tsá?

mamãe é o que como

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Na casa da minha mãe, comida sempre foi assunto de longas conversas na mesa, hábito que carinhosamente apelidamos de “aulinha”: mamãe, com seu doutorado em nutrição, fazia questão de “explicar” o que comíamos, porque isso ou aquilo era importante e porque cozinhar dessa ou daquela forma fazia diferença. Pensem num almoço nerd, onde se se discutia química de alimentos. O resultado é que todos nós (os 3 filhos) sabemos (ao menos em teoria) muita coisa sobre comida. Foram décadas de doutrina para que as filhas mulheres se preocupassem em comer folhas escuras com frequência, por conta do ácido fólico, e castanhas do pará, por conta do selênio, e que os três tomassem pelo menos três copos de leite por dia (isso mesmo, de manhã, depois do almoço – tipo sobremesa, sabe? – e antes e dormir).

Que os filhos tivessem bons hábitos alimentares sempre foi, pra mamãe, algo muito importante. E não era só o clichê da “fritura faz mal”, porque a gente sempre pode comer fritura, doce ou refrigerante; nunca houve nada proibido lá em casa. O que mamãe fazia era informar a gente dos pros e contras do que comíamos (o que nos deu uma espécie de “responsabilidade alimentar”), e ela estava sempre atenta: sabia quando meu irmão tinha comido o pacote todo de biscoito. Essa estratégia deu certo com minha irmã, que, agora adulta e médica-em-treinamento, tem uma dieta absolutamente balanceada e frugal (veja-se seu peso-pena de 50 míseros quilinhos),  mas não sei até que ponto mamãe prefere não saber o que meu irmão come, lá nas perdições do Rio.

Comigo as aulinhas deixaram um legado diferente. Eu gosto de COMIDA, assim, em caps lock; uma saladinha não se qualifica como almoço pra mim. E também gosto de jantar de verdade, principalmente de massas. Gosto de junk food nos momentos de excesso. Só não sou maníaca por doces. Acho que não entro no conceito A da doutrina alimentar de mamãe, mas certamente me preocupo com o que ponho do prato. Parece que, pra mim, as aulinhas serviram para criar um pano de fundo de conhecimento teórico para que eu fique no equilíbrio, compensando meu amor por macarronadas com meu respeito por peixe grelhado com arroz integral.

É que meu paladar, depois de adulta, refinou-se. Eu passei a participar do processo de cozinhar (e que delícia é passar de alguém que só sabe fazer macarrão com atum pra alguém que é capaz de fazer um almoço com praticamente qualquer coisa), passei a frequentar restaurantes diferentes, a experimentar temperos. Passei a pensar e planejar comida. E essa libertação da cozinha saudável de mamãe também foi importante.

Mas percebo que elas estão sempre lá, mamãe e as aulinhas. Mesmo na Mc Donalds, eu sei como e com o que eu devo compensar depois. Se eu faço uma farra, sei me recuperar. Eu, inconscientemente, uso a cozinha de mamãe na minha vida.

Só que, quando escolho o que meus enteados vão almoçar, quando faço truques para que eles provem frutas e verduras, quando regulo a quantidade de fritura que eles podem comer no fim de semana, ou estabeleço a regra dos sucos durante a semana, eu não sou eu e minhas compensações gulosas, eu sou mamãe em pessoa. É ela que está atenta para a proporção carboidrato/proteína, que dá sobremesas reguladas depois de um bom almoço, que ensaia aulinhas simplificadas para eles na mesa (“é melhor tomar suco de polpa do que em caixinha, porque na polpa ainda fica um pouquinho das vitaminas”)… até arroz de sete grãos eles comem, e chamam de “arroz da mamãe de nine”!

Percebi que minha mãe (como todas as mães) se reproduz em mim, para meus enteados, e – olha que coisa! – no que existe de mais maternal na natureza: no nutrir.

a ponte, o rio e eu

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Todo mundo tem um professor querido do coração. Alguém que pegou uma matéria que você ou odiava ou desdenhava e transformou em algo novo, interessante, que fazia você chegar em casa e querer estudar mais. Sabe aquela professora de literatura que fazia você entender, na oitava série, como Machado de Assis era genial? Essa matéria pra mim foi direito penal, e esse professor foi o Professor Antônio Carlos da Ponte, e quando isso aconteceu eu já tinha passado há muito tempo dos tempos de faculdade.

O engraçado é que eu nunca assisti, presencialmente, uma aula sequer dele. Eu acompanhava suas lições via satélite, num curso a distância. Isso mesmo, um curso a distância. Ele lá na Alameda Santos e eu sentadinha numa banca aqui em Recife, num curso de seis meses que mudou minha visão sobre o Direito e que deu forma aos projetos a que me agarrei dali pra frente. Eu odiava direito penal na faculdade. Com o Professor Ponte, consegui ser aprovada numa prova discursiva para promotor de justiça. Foi ele quem me fez finalmente entender o que antes era incompreensível. O caderno onde eu fiz as anotações de suas aulas já está com a capa quase caindo, de tanto que foi consultado.

Pois bem, quando recebi o resultado dessa prova eu lembro quedisse que iria, se viesse a tomar posse, mandar um email ao Professor e contar-lhe dessas circunstâncias, primeiro porque acho que a profissão é incrivelmente desrespeitada nesse país, e bons professores precisam ser reconhecidos, e depois por questões sentimentais: pra mim é muito importante dizer, com todas as letras, que admiro/odeio/tenho medo/amo/respeito o outro. É uma questão de honra.

Mas então o mundo dá muitas voltas e durante muitos meses eu fiquei sem saber o que iria acontecer. Ter passado na prova não era o suficiente, e eu tinha que esperar decidirem como é que ia ser. E não é que justo na manhã em que isso foi resolvido, em Brasília-DF, eu vejo o Professo Ponte no corredor do lado de fora da sala do Plenário? Eu tinha acabado de sair da sessão, feliz, e ele estava lá, ali do meu lado, a um metro do meu ombro.

Apressei-me em estender a mão, apresentei-me, disse que ele não me conhecia. Mas contei a diferença que ele tinha feito em minha vida. Que eu estava ali, em alguma instância, por causa dele. Que sua inspiração como professor tinha mudado completamente minhas opiniões. Que ele tinha me inaugurado um caminho novo. E ele – pessoa muito simples, muito educado e simpático – sorriu, meio envergonhado, meio satisfeito. Acabamos conversando por quase uma hora. Trocamos ideias, impressões, ele me contou de alguma de suas experiências no Ministério Público. Enchi-me novamente de altos ideais, movida pela suas palavras. No final, deu-me um cartão, onde anotou seu telefone. Vi que ele é também (e eu nem sabia) vice-diretor da PUC-SP. Perguntei se, se eu viesse a exercer o cargo, eu poderia ligar pra tirar dúvidas. Ele riu e me garantiu que sim. Pediu que eu lhe avisasse da data da posse.

Foi somente aí que a ficha caiu. O ciclo estava se completando, olha só. Eu tinha saído da menina que não entendia muito bem o que tinha ido fazer na facvldade pra mulher que estava conversando com gente grande na Capital Federal, cheia de ideias e de argumentos, que teve a honra de dizer a um Professor querido o quanto ele era querido. E que tinha umas microlágrimas nos olhos que eu teimei, a custo custo, em reprimir.