Arquivo mensal: junho 2010

o pão com o suor do teu rosto

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eu me formei há pouco mais de 8 anos. pensando bem, é tempo demais. não porque 8 anos seja muito,mas porque 8 anos, no curso dos seus 20’s, é praticamente sua vida inteira.

a faculdade não foi tão legal. a maioria das pessoas tem essa nostalgia dos tempos irresponsáveis de faculdade, em que os dias oscilavam entre o ócio, as farras homéricas e as descobertas. pra mim não foi muito diferente, mas havia uma mancha por sobre todo esse processo, um desconforto com aquilo tudo: os livros, os professores, o chatérrimo oquevocêvaifazerdavidaquandotiverodiploma. houve uma época em que ir pra faculdade era um castigo. sair da faculdade foi ainda mais complicado.

pra alguns esse salto é bem mais simples, é pragmático, é natural. pra mim é um problemão, impossível de explicar pra quem conseguiu se descolar em paz.

meu caminho algumas vezes encurtou, na maioria se estendeu para além da conta. nada era bom, nada era eu, eu era sempre o automático das contingências do momento. lembro que meu pai me perguntou qual a área pela qual eu mais me interessava no direito; eu disse uma lá não por nada, eu nem sabia bem do que setratava, mas era o que um amigo estava estudando, então me pareceu mais adequado do que dizer simplesmente “nada, papai, é tudo uma grande encenação pra alguém levar a melhor em cima dos outros”.

fiz tanta coisa até chegar aqui, e olhe que falo estritamente sobre trabalho: dei aula, fui estagiária, advogada, passei pelo profundo processo de desprezo pelo modo de vida que os “de sucesso” invariavelmente adotam. o carrão, o apartamento MD, a insuportável atitude “meu dinheiro compra”. meio que por acidente, acabei virando funcionária pública, e, curiosamente (até hoje essa reflexão me surpreende), acho que foi só aí que comecei a entender meu trabalho de verdade, e a pensar com alguma seriedade no que eu REALMENTE iafazerdavidacomdiploma. acabei sendo encontrada no recanto mais improvável. mas demorou.

ontem finalmente me dei conta de que nos próximos vinte ou trinta dias tudo vai mudar. meu novo emprego não é só mais um novo emprego. é o fim desse caminho – ainda que seja apenas o caminho inicial. e esse fim/início exige de mim algumas das coisas que mais amo. exige minha liberdade, minha rotininha, minhas despreocupações, exige, principalmente, que eu fique longe do que me é mais caro no mundo: minha família. parece que vou ter que, enfim, me soltar. let go. deixar que meu instinto daquilo que é certo me guie.

é mesmo preciso ter cuidado com o que se deseja. geralmente, não no tempo em que a gente quer, mas no tempo próprio que as coisas têm pra acontecer, esses desejos acontecem. e por baixo de tudo, de meus desejos e sonhos e desafios, de meus medos, lembro do dilema que conheci lá no comecinho dessa jornada, no próprio seio daquilo cujo pavor absoluto me trouxe até aqui: “de que vale ao homem ganhar o mundo e perder a sua alma”?

eu quero começar brigando pelo mundo, porque minha alma, depois de quase um década, parece que encontrou um lugar pra trabalhar. começa meio longe daqui.