a ponte, o rio e eu

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Todo mundo tem um professor querido do coração. Alguém que pegou uma matéria que você ou odiava ou desdenhava e transformou em algo novo, interessante, que fazia você chegar em casa e querer estudar mais. Sabe aquela professora de literatura que fazia você entender, na oitava série, como Machado de Assis era genial? Essa matéria pra mim foi direito penal, e esse professor foi o Professor Antônio Carlos da Ponte, e quando isso aconteceu eu já tinha passado há muito tempo dos tempos de faculdade.

O engraçado é que eu nunca assisti, presencialmente, uma aula sequer dele. Eu acompanhava suas lições via satélite, num curso a distância. Isso mesmo, um curso a distância. Ele lá na Alameda Santos e eu sentadinha numa banca aqui em Recife, num curso de seis meses que mudou minha visão sobre o Direito e que deu forma aos projetos a que me agarrei dali pra frente. Eu odiava direito penal na faculdade. Com o Professor Ponte, consegui ser aprovada numa prova discursiva para promotor de justiça. Foi ele quem me fez finalmente entender o que antes era incompreensível. O caderno onde eu fiz as anotações de suas aulas já está com a capa quase caindo, de tanto que foi consultado.

Pois bem, quando recebi o resultado dessa prova eu lembro quedisse que iria, se viesse a tomar posse, mandar um email ao Professor e contar-lhe dessas circunstâncias, primeiro porque acho que a profissão é incrivelmente desrespeitada nesse país, e bons professores precisam ser reconhecidos, e depois por questões sentimentais: pra mim é muito importante dizer, com todas as letras, que admiro/odeio/tenho medo/amo/respeito o outro. É uma questão de honra.

Mas então o mundo dá muitas voltas e durante muitos meses eu fiquei sem saber o que iria acontecer. Ter passado na prova não era o suficiente, e eu tinha que esperar decidirem como é que ia ser. E não é que justo na manhã em que isso foi resolvido, em Brasília-DF, eu vejo o Professo Ponte no corredor do lado de fora da sala do Plenário? Eu tinha acabado de sair da sessão, feliz, e ele estava lá, ali do meu lado, a um metro do meu ombro.

Apressei-me em estender a mão, apresentei-me, disse que ele não me conhecia. Mas contei a diferença que ele tinha feito em minha vida. Que eu estava ali, em alguma instância, por causa dele. Que sua inspiração como professor tinha mudado completamente minhas opiniões. Que ele tinha me inaugurado um caminho novo. E ele – pessoa muito simples, muito educado e simpático – sorriu, meio envergonhado, meio satisfeito. Acabamos conversando por quase uma hora. Trocamos ideias, impressões, ele me contou de alguma de suas experiências no Ministério Público. Enchi-me novamente de altos ideais, movida pela suas palavras. No final, deu-me um cartão, onde anotou seu telefone. Vi que ele é também (e eu nem sabia) vice-diretor da PUC-SP. Perguntei se, se eu viesse a exercer o cargo, eu poderia ligar pra tirar dúvidas. Ele riu e me garantiu que sim. Pediu que eu lhe avisasse da data da posse.

Foi somente aí que a ficha caiu. O ciclo estava se completando, olha só. Eu tinha saído da menina que não entendia muito bem o que tinha ido fazer na facvldade pra mulher que estava conversando com gente grande na Capital Federal, cheia de ideias e de argumentos, que teve a honra de dizer a um Professor querido o quanto ele era querido. E que tinha umas microlágrimas nos olhos que eu teimei, a custo custo, em reprimir.

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