Arquivo mensal: setembro 2009

a ponte, o rio e eu

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Todo mundo tem um professor querido do coração. Alguém que pegou uma matéria que você ou odiava ou desdenhava e transformou em algo novo, interessante, que fazia você chegar em casa e querer estudar mais. Sabe aquela professora de literatura que fazia você entender, na oitava série, como Machado de Assis era genial? Essa matéria pra mim foi direito penal, e esse professor foi o Professor Antônio Carlos da Ponte, e quando isso aconteceu eu já tinha passado há muito tempo dos tempos de faculdade.

O engraçado é que eu nunca assisti, presencialmente, uma aula sequer dele. Eu acompanhava suas lições via satélite, num curso a distância. Isso mesmo, um curso a distância. Ele lá na Alameda Santos e eu sentadinha numa banca aqui em Recife, num curso de seis meses que mudou minha visão sobre o Direito e que deu forma aos projetos a que me agarrei dali pra frente. Eu odiava direito penal na faculdade. Com o Professor Ponte, consegui ser aprovada numa prova discursiva para promotor de justiça. Foi ele quem me fez finalmente entender o que antes era incompreensível. O caderno onde eu fiz as anotações de suas aulas já está com a capa quase caindo, de tanto que foi consultado.

Pois bem, quando recebi o resultado dessa prova eu lembro quedisse que iria, se viesse a tomar posse, mandar um email ao Professor e contar-lhe dessas circunstâncias, primeiro porque acho que a profissão é incrivelmente desrespeitada nesse país, e bons professores precisam ser reconhecidos, e depois por questões sentimentais: pra mim é muito importante dizer, com todas as letras, que admiro/odeio/tenho medo/amo/respeito o outro. É uma questão de honra.

Mas então o mundo dá muitas voltas e durante muitos meses eu fiquei sem saber o que iria acontecer. Ter passado na prova não era o suficiente, e eu tinha que esperar decidirem como é que ia ser. E não é que justo na manhã em que isso foi resolvido, em Brasília-DF, eu vejo o Professo Ponte no corredor do lado de fora da sala do Plenário? Eu tinha acabado de sair da sessão, feliz, e ele estava lá, ali do meu lado, a um metro do meu ombro.

Apressei-me em estender a mão, apresentei-me, disse que ele não me conhecia. Mas contei a diferença que ele tinha feito em minha vida. Que eu estava ali, em alguma instância, por causa dele. Que sua inspiração como professor tinha mudado completamente minhas opiniões. Que ele tinha me inaugurado um caminho novo. E ele – pessoa muito simples, muito educado e simpático – sorriu, meio envergonhado, meio satisfeito. Acabamos conversando por quase uma hora. Trocamos ideias, impressões, ele me contou de alguma de suas experiências no Ministério Público. Enchi-me novamente de altos ideais, movida pela suas palavras. No final, deu-me um cartão, onde anotou seu telefone. Vi que ele é também (e eu nem sabia) vice-diretor da PUC-SP. Perguntei se, se eu viesse a exercer o cargo, eu poderia ligar pra tirar dúvidas. Ele riu e me garantiu que sim. Pediu que eu lhe avisasse da data da posse.

Foi somente aí que a ficha caiu. O ciclo estava se completando, olha só. Eu tinha saído da menina que não entendia muito bem o que tinha ido fazer na facvldade pra mulher que estava conversando com gente grande na Capital Federal, cheia de ideias e de argumentos, que teve a honra de dizer a um Professor querido o quanto ele era querido. E que tinha umas microlágrimas nos olhos que eu teimei, a custo custo, em reprimir.

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somos os mesmos e vivemos

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a gente passa anos achando que ainda tem muito tempo até chegar a ser “velho”. eu mesma achava que demoraria a vida inteira pra chegar aos 30 (sendo 30, claro, o símbolo da chegada ao “velho”, quando se tem 20). pois meus 30 tão aí batendo na porta, e eu continuo brigando com/contra a idéia de que ainda tenho muito tempo pra muita coisa na vida.

mas o que eu queria dizer era que eu nunca achei que um momento assim, pinçado no meio dos dias, fotografado de forma claríssima, poderia ser a certidão – selada, carimbada e assinada – de que você já não pertence mais ao mundo “jovem”. sempre me pareceu que seria um processo gradual, de modo que a gente jamais conseguisse apontar o dedo pra dizer “olha, foi precisamente ali que eu percebi que já tinha dobrado a esquina”.

bem, eu me lembro quando meu pai tinha trinta e poucos. me parecia um bocado, ele sendo meu pai todo onipotente. lembro da minha mãe me esperando na saída das festas pra me levar pra casa, e ela também tinha trinta e poucos. mas foi sexta-feira passada, dia 18 de setembro de 2009 – vejam bem, foi exatamente naquela noite – que eu finalmente entendi que já tinha chegado minha vez de ter trinta. e que daqui a pouquíssimos anos serei eu lá, em pé, esperando minha enteada sair do show do beirut de então pra levá-la pra casa.

pela primeira vez na vida, olhei em volta e vi os outros não como meus pares, “minha galera no show de rock”, mas exatamente com o mesmo ar enfadado, crítico, paternalista e velho com que os “adultos” tinham me olhado por toda a minha adolescência. descoberta da década: eu tinha saltado de geração.

Eliane Brum. Vida de Clichê (Revista Época).

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“Sei disso e tento manter-me inquieta. Quando vou me tornando um bichinho, enrodilhada em mim mesma, sou também eu que me cutuco com um pedaço de pau para sair da toca. Conforto é bom, mas é também uma não-ação. Sei que apenas chegando cada vez mais perto de mim mesma é que posso alcançar a possibilidade de ser outra. E de fazer do velho em mim algo novo.” (daqui)