The West Wing

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em novembro passado comecei a assistir The West Wing. não foi difícil me apaixonar. alugamos todos os dvds, depois passamos a comprar as caixas das temporadas, porque acabava saindo mais barato. emendávamos um episódio no outro, um dvd no outro, uma temporada na outra. e assim os meses se passaram, acompanhando cada uma das sete temporadas. The West Wing era minha leitura antes de pegar no sono.

evitei começar. uma série sobre política americana não poderia ser tão interessante a ponto de ocupar a minha (quase sempre única) hora de ócio absoluto antes de dormir. enganei-me redondamente. não sou nada intelectualóide, mas não gosto de ser subestimada. gosto é de ser desafiada: a aprender mais, a entender melhor, a pensar melhor. The West Wing foi a série mais inteligente que vi na vida (e olha que eu amo seriados). Os diálogos são primorosos (especialmente se você não precisa ler legendas), os temas são sempre tratados de forma adulta (nunca maniqueísta ou unilateralmente), os atores são fantásticos. Cria-se uma empatia absurda com os personagens, de tão bem construídos que são.

o que mais me surpreendeu, no entanto, foi o fato de que uma série desse nível tenha ocupado o horário nobre da televisão americana por sete (isso mesmo: sete) anos. há como se pensar que no Brasil isso seria possível? em que dimensão extraterrestre o debate político seria uma sucesso de público na tv brasileira? num país onde nem os próprios políticos se levam a sério, onde a política, antes de ser um projeto de país é um atalho para vantagens pessoais, o padrão de entretenimento TV Globo (e agora, pra piorar, TV Record) é o espelho da maturidade intelectual a que chegamos, isto é, somos todos umas comadres debatendo as tramas novelescas, enquanto o país é uma enorme casa da mãe joana. O Brasil não se leva a sério.

Não sou americanófila. Não acho que o povo americano seja modelo para nada. Mas aprendi que, pelo menos, eles respeitam (ainda que na instância de valor abstrato) uma noção de Estado. Uma idéia coesa de Estado, de coisa pública. Acho que, se alguém tentasse trazer essas questões (de debate constitucional, jurídico, político, internacional etc) para o horário nobre da televisão, até os roteiristas seriam ridicularizados. Simplesmente não chegamos a esse nível, como nação.

No próximo mês vamos nos enrolar na bandeira nacional e vamos nos emocionar com o hino tocado nas competições esportivas, mas nossa idéia de patriotismo não é adulta. Somos crianças nos jogos da escola, brincando de defender o colégio sem nunca parar para refletir sobre a administração da competição.

curiosamente, acabamos as sete temporadas em poucos meses, e evitamos – como quem não quer que algo bom acabe – o último episódio. mantivemo-o guardado. ontem, com um bom vinho, ouvimos pela última vez a musiquinha da abertura, e confesso que chorei. lembrei que foi por querer pensar no país com seriedade que eu inventei (?!) de estudar direito, isso em 1996. é verdade que eu queria era ser diplomata, mas nem sempre se pode tudo. com todas as mazelas, ao menos o serviço público me dá agora um certo gostinho de servir (de forma irrisória, vá lá) a um ideal de Estado em que acredito.
e acho que tenho todo o direito de ser tão idealista quanto The West Wing.

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  1. West Wing é fantástico. Cheguei a assistir há um tempo no SBT, de madrugada, e me interessei em pegar os DVDs. Pena que a sétima temporada não chegou aqui no Brasil em box. Por isso estou tentando baixar. Se você gostou de West Wing, recomendo Studio 60 on the Sunset Strip – outro seriado escrito pelo Aaron Sorkin. Durou só uma temporada, mas tem o mesmo texto inteligente de West Wing.

  2. Bom dia!
    Adorei teu texto. Pois concordo com a tua visão em relação ao seriado. Confesso que foi a melhor coisa que já assisti na televisão. E tudo começou por acaso, quando perdi o sono numa dessas madrugadas e liguei a tv no SBT. Foi amor à primeira vista, na ocasião estava passando a sexta temporada. A paixão foi tão grande que comecei a pesquisar e comprei os boxes de todas as temporadas a exceção da sétima que infelizmente ainda não lançaram no Brasil, por isso continuo assistindo nas madrugas no SBT. Caso tenhas alguma notícia desse lançamento e puderes fazer contato, ficarei muito grato.
    Um abraço, Marco

  3. Bem, acho desnecessário reafirmar os comentários acima. Também sou fã incondicional desta série e consegui arrastar uma leva de pessoas a assisti-lá, justamente pelo ideal de um dia sermos tão idealistas quanto. Bem, também adquiri todos os boxes das temporadas menos a sétima, e como acabei de ver o último episódio agora da sexta temporada neste exato instante, ficarei na expectativa do lançamento.
    Parabéns pelo blog inteligente.
    Abraços…..
    Fernando

  4. Estava procurando informações sobre a sétima temporada (um enorme desrespeito ainda não ter sido lançada por aqui) e achei este texto.
    Fantástico!
    Esta séria foi uma das coisas mais interessantes que já acompanhei. Tive muitas desilusões com a política, por ter uma visão idealista do mundo e do que é contribuir com o País. Esta série me inspirou em vários momentos. E me consolou em outros. No fundo, pelo trabalho dos autores pude perceber que uma forma de manter o idealismo ativo, vivo, pulsante, é através de obras que possam inspirar ou consolar… a política é nobre na essência, mas vil na prática.
    É uma pena que tão poucos possam perceber a grandeza desta série.
    Parabéns pelo seu texto.
    Estou à espera da sétima..

  5. Me indicaram West Wing há cerca de dois anos. Adorei os episódios que assisti. E uma empatia indescrítivel com os personagens e suas histórias.Fiquei interessado em aprender mais sobre a política americana e seu ideal, e cada vez mais desejoso de que o respeito pelas instituições, a visão de Estado que os EUA têm fossem também regra no Brasil. Ledo engano, claro. A política brasileira (e o modo como é praticada) chega a ser nojenta.Uma pena. Bom, agora estou novamente assistindo. Mas desta vez, comprando os DVD’s para mim. Virou um programão antes de dormir. Recomendo a todos.

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