Arquivo mensal: março 2008

hilda, você é minha ídala

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Delicatessen

Hilda Hilst


Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, “tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua “ídala”, mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: “pé-de-porco”. Não entendi. Como? “Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também”. Ahn… interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: “O que aconteceu com seus gatos?” Resposta: “Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu”. Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que “bife” era uma coisa para as classes mais baixas, “de um mau gosto terrível”, ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia… Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas… Perguntei: “E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?” Resposta: “Tive de matá-los”. “Mas por quê?!” Resposta: “Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos”. “Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?” Olhou-me aparvalhado: “Mas onde? Pra quem?” “E como você os matou?” “A pauladas”, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

Texto extraído do jornal “Correio Popular”, de Campinas-SP, edição de 01/03/1993.

(copiei daqui)

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bota a mão no joelho

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Aí a celebridade do momento é uma mulher que tem 1,21m de quadril, aparente elefantíase nas coxas e na bunda e atende pelo nome de mulher-melancia.

Aí um amigo me conta que, num desses sinais de trânsito da vida, ouviu uma mãe dizer para sua filha (que pedia dinheiro aos carros parados) “vá dar logo essa sua b…ta pra arrumar dinheiro!”.

Aí eu me pergunto por que ainda existem universidades no Brasil. Mulher brasileira tem mesmo é que trabalhar em  puteiros e agenciar pra políticos gringos, né verdade?

Aí eu me pergunto se vale a pena criar uma filha pra ela crescer e a achar que a bunda é a parte mais importante de seu intelecto.

overdoing

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vez por outra me pego cansada demais para uma segunda-feira. como hoje. aí me lembro que, entre jantares, aniversários, compras, passeios, almoços, telefonemas, filmes, expurgos de tralhas e outros compromissos,  não tive um momentinho sequer para ficar caladinha, lendo um livro ou vendo o tempo passar. nem mesmo a higiene mental da meditação-na-manicure (ritual sagrado das mulheres) eu pude me dar o luxo de fazer. de algum jeito, o “ficar em casa” passou a ser exceção, a ser evitada a todo custo. como se o que acontece “lá fora” fosse sempre infinitamente mais interessante. passar a tarde do sábado em casa se tornou entediante: bom mesmo é ir pro shopping!

nesse mundo maluco, onde é cada vez mais complicado alcançar objetivos e ter um certo senso de realização (os standands são cada vez mais desumanos), fico me perguntando: quando é que ficou tão difícil simplesmente não fazer NADA?

a girl’s best friend

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ultimamente tenho me surpreendido seriamente cogitando comprar uma jóia. fico olhando vitrines, imaginando pagamentos, pensando no melhor modelo de brincos. tudo isso pra nada. só porque  acho que seria bom ter uma coisa muito bonita e eterna e luxuosa em casa, pra poder contemplar quando eu me sentisse nhé.