Arquivo mensal: novembro 2007

provocateaser, eu?

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eu deveria ficar triste porque a loja da forum no shopping recife fechou e eu, sempre que queria ou precisava me sentir sexy, gostava de pensar na forum como um armazém de roupas pra me sentir me bonita. mesmo que não fosse lá comprar porque não tinha dinheiro. eu gostava da idéia de mulher que eles antigamente vendiam. refinada, mas sexual. provocadora, mas de bom tom. se bem que de uns anos pra cá eu já vinha identificando a decadência, uma certa desassociação de imagem.

mas eu não estou lamentando muito não.

simplesmente me toquei (e isso, sim, me deixou mal) que a minha imagem de mim mesma também andou mudando muito. ando trocando os decotões por roupas mais clássicas. ando substituindo quantidade por qualidade. são cada vez mais raras as vezes em que me vejo como uma mulher sexy/arrasa-quarteirão. não sei se isso é bom ou ruim, se vem com a idade, com a felicidade conjugal ou com os compromissos e planos de futuro. mas sei que isso é grave. ontem, por exemplo, minha dermatologista me disse que eu já estava na idade de usar um leve ácido pra prevenir as ruguinhas (e eu acho lindo mulher com ruguinha!). no fim de semana eu comprei um vestido tamanho M só porque achei o tamanho P curto demais, mesmo sabendo qe eu teria que mandar apertá-lo.

o diagnóstico de todo esse blá blá blá, meus amigos? eu tenho medo de que daqui a pouquinho eu vire uma matrona.

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para falta de inspiração, drummond.

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Morte do leiteiro

A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.