mas como eu ia dizendo …

       o que era mesmo que eu queria dizer?

reflexão para o mês Outubro 28, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 5:38 pm

tem uma cena em MILK, de Gus van Sant, em que o personagem-título, na noite de seu aniversário de 40 anos, suspira e se lamenta: “40 anos e não fiz nada de me que me orgulhe”. achei a melhor cena.

o que acontece quando a gente se dá conta de que é preciso, sim, se orgulhar, de que não basta somente viver?

 

a ponte, o rio e eu Setembro 30, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 11:28 pm

Todo mundo tem um professor querido do coração. Alguém que pegou uma matéria que você ou odiava ou desdenhava e transformou em algo novo, interessante, que fazia você chegar em casa e querer estudar mais. Sabe aquela professora de literatura que fazia você entender, na oitava série, como Machado de Assis era genial? Essa matéria pra mim foi direito penal, e esse professor foi o Professor Antônio Carlos da Ponte, e quando isso aconteceu eu já tinha passado há muito tempo dos tempos de faculdade.

O engraçado é que eu nunca assisti, presencialmente, uma aula sequer dele. Eu acompanhava suas lições via satélite, num curso a distância. Isso mesmo, um curso a distância. Ele lá na Alameda Santos e eu sentadinha numa banca aqui em Recife, num curso de seis meses que mudou minha visão sobre o Direito e que deu forma aos projetos a que me agarrei dali pra frente. Eu odiava direito penal na faculdade. Com o Professor Ponte, consegui ser aprovada numa prova discursiva para promotor de justiça. Foi ele quem me fez finalmente entender o que antes era incompreensível. O caderno onde eu fiz as anotações de suas aulas já está com a capa quase caindo, de tanto que foi consultado.

Pois bem, quando recebi o resultado dessa prova eu lembro quedisse que iria, se viesse a tomar posse, mandar um email ao Professor e contar-lhe dessas circunstâncias, primeiro porque acho que a profissão é incrivelmente desrespeitada nesse país, e bons professores precisam ser reconhecidos, e depois por questões sentimentais: pra mim é muito importante dizer, com todas as letras, que admiro/odeio/tenho medo/amo/respeito o outro. É uma questão de honra.

Mas então o mundo dá muitas voltas e durante muitos meses eu fiquei sem saber o que iria acontecer. Ter passado na prova não era o suficiente, e eu tinha que esperar decidirem como é que ia ser. E não é que justo na manhã em que isso foi resolvido, em Brasília-DF, eu vejo o Professo Ponte no corredor do lado de fora da sala do Plenário? Eu tinha acabado de sair da sessão, feliz, e ele estava lá, ali do meu lado, a um metro do meu ombro.

Apressei-me em estender a mão, apresentei-me, disse que ele não me conhecia. Mas contei a diferença que ele tinha feito em minha vida. Que eu estava ali, em alguma instância, por causa dele. Que sua inspiração como professor tinha mudado completamente minhas opiniões. Que ele tinha me inaugurado um caminho novo. E ele – pessoa muito simples, muito educado e simpático – sorriu, meio envergonhado, meio satisfeito. Acabamos conversando por quase uma hora. Trocamos ideias, impressões, ele me contou de alguma de suas experiências no Ministério Público. Enchi-me novamente de altos ideais, movida pela suas palavras. No final, deu-me um cartão, onde anotou seu telefone. Vi que ele é também (e eu nem sabia) vice-diretor da PUC-SP. Perguntei se, se eu viesse a exercer o cargo, eu poderia ligar pra tirar dúvidas. Ele riu e me garantiu que sim. Pediu que eu lhe avisasse da data da posse.

Foi somente aí que a ficha caiu. O ciclo estava se completando, olha só. Eu tinha saído da menina que não entendia muito bem o que tinha ido fazer na facvldade pra mulher que estava conversando com gente grande na Capital Federal, cheia de ideias e de argumentos, que teve a honra de dizer a um Professor querido o quanto ele era querido. E que tinha umas microlágrimas nos olhos que eu teimei, a custo custo, em reprimir.

 

somos os mesmos e vivemos Setembro 23, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 10:25 pm

a gente passa anos achando que ainda tem muito tempo até chegar a ser “velho”. eu mesma achava que demoraria a vida inteira pra chegar aos 30 (sendo 30, claro, o símbolo da chegada ao “velho”, quando se tem 20). pois meus 30 tão aí batendo na porta, e eu continuo brigando com/contra a idéia de que ainda tenho muito tempo pra muita coisa na vida.

mas o que eu queria dizer era que eu nunca achei que um momento assim, pinçado no meio dos dias, fotografado de forma claríssima, poderia ser a certidão – selada, carimbada e assinada – de que você já não pertence mais ao mundo “jovem”. sempre me pareceu que seria um processo gradual, de modo que a gente jamais conseguisse apontar o dedo pra dizer “olha, foi precisamente ali que eu percebi que já tinha dobrado a esquina”.

bem, eu me lembro quando meu pai tinha trinta e poucos. me parecia um bocado, ele sendo meu pai todo onipotente. lembro da minha mãe me esperando na saída das festas pra me levar pra casa, e ela também tinha trinta e poucos. mas foi sexta-feira passada, dia 18 de setembro de 2009 – vejam bem, foi exatamente naquela noite – que eu finalmente entendi que já tinha chegado minha vez de ter trinta. e que daqui a pouquíssimos anos serei eu lá, em pé, esperando minha enteada sair do show do beirut de então pra levá-la pra casa.

pela primeira vez na vida, olhei em volta e vi os outros não como meus pares, “minha galera no show de rock”, mas exatamente com o mesmo ar enfadado, crítico, paternalista e velho com que os “adultos” tinham me olhado por toda a minha adolescência. descoberta da década: eu tinha saltado de geração.

 

e tudo se resume Agosto 30, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 7:54 pm

a pior coisa do mundo é a indefinição. é possível aprender a lidar, com o tempo, com uma situação ruim, com uma sacanagem que alguém lhe fez ou com um grande azar. qualquer adulto bem resolvido deveria poder, com alguma paciência e terapia, sobreviver a essas pequenas tragédias cotidianas, uns muito bem, outros nem tanto. mas como lidar com um problema, quando ele ainda não se apresenta pronto e acabado na sua frente?

muito fácil, você diria. se ele ainda não está lá, é porque não existe, portanto não seria fonte alguma de preocupação. errado. ele existe porque todos os dias eu sinto os seus efeitos, todos os dias esse problema consome minhas horas, meus neurônios, minha ansiedade crônica. ele existe porque todo santo dia alguém me pergunta sobre ele, no supermercado, na livraria, na festinha. só que até agora não se decidiu, formalmente, como é que esse problema vai ser enfrentado, então eu fico esperando.

esta semana se decidirá sobre um processo que tem consumido esses últimos 16 meses da minha vida. parece grande coisa, mas não é. do ponto de vista prático, é só um emprego. do MEU ponto de vista, é aquilo por que briguei, passei noites insones, dediquei fins de semana, feriados e férias. durante 16 meses eu me preparei pra isso, fiquei feliz com isso, sofri e descabelei com isso, e pode ser que sexta-feira eu tenha algum tipo de definição. ou não. pode resolver os próximos 30 anos da minha vida. pode descambar pra uma briga feia. pode me fazer cair em depressão. pode me impulsionar pra tentar algo novo. como saber?

de qualquer jeito, eu só espero a decisão. eu quero que alguém defina o que é que eu vou ter que fazer. quero me libertar de ter que contar com esse sim ou não pra saber se eu posso respirar.

 

disco quebrado Agosto 25, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 1:22 am

a minha vida é lugar-comum. a sua vida, muito provavelmente, também é. talvez ambos nos incomodemos com isso. mas, assumindo que você é uma pessoa mais ou menos como eu, é certo que a gente vai passar o resto da vida fazendo muito pouco pra mudar. mas reclamando sempre. porque reclamar é o lugar-comum que todo mundo tem em comum.

bem, quase todo mundo. domingo de noite fui ao depósito da tok&stok pegar uns bancos que esperavam lá por mim há dias. Cheguei dez minutos antes do fim do expediente, mas o cara que me atendeu, desenrolou tudo (eu tinha esquecido o papel), carregou os bancos e os acomodou no carro trabalhava com um sorriso na cara e com evidente alegria, sem nenhum sinal de cansaço ou irritação. Esse cara merece uma medalha.

eu, igual a quase todo o resto da população, volto pra casa reclamando, achando tudo tarde demais pra ser diferente e sonhando, talvez inutilmente, com o dia em que eu vou descobrir que posso fazer alguma diferença. ainda não sei em que lugar incomum eu me sentiria confortável. o pior é que talvez esse seja o mais banal de meus lugares-comuns.

 

acabou e não foi como eu imaginava que seria Agosto 21, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 7:06 pm

Oh, Brasília. Para poucos dias, foram muitas reflexões. Brasília é, pra dizer o mínimo, uma cidade estranha. Enquanto toda cidade nasce da aglomeração de pessoas, BSB foi posta no mundo às avessas; uma cidade erguida no meio do nada pela força inquebrantável do poder. O poder pode tudo, e assim se fez Brasília.

É curioso para quem vive no meio jurídico passear pelo centro das decisões (acredito que o correspondente para quem trabalha com negócios e dinheiro seja São Paulo). Fiz, é claro, as visitas de estilo. Ali, de onde sai o núcleo do que estudo e me esforço para compreender (às vezes é tarefa impossivel), tudo é inóspito, vazio, frio, povoada a cidade por autômatos de crachá muito orgulhosos de seu poder. Brasília me fez sentir, ao contrário, bem pequena e insignificante. Mas a questão é: eu gostaria mesmo de fazer parte daquela elite que come caro, mora mais caro ainda e se encapsula em escritórios para comparar poderes como num banheiro masculino? O meu é maior que o seu.

Curiosamente, o episódio que melhor simbolizou minha visita à capital se passou no Itamaraty. Quando eu acabara de entrar naquele palácio que sempre simbolizou meus sonhos (adolescentes?) de ser diplomata cosmopolita culta e influente, cheia de idéias e desafios, tocou meu telefone. Era um amigo, me informando da publicação do edital do concurso para procurador do estado. Desliguei com lágrimas nos olhos, e me senti tomada de tristes resignações. Eu brigo muito para sonhar, mas a realidade prática e suburbana da minha vidinha pacata logo me exige acordar.

 

nota Agosto 9, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 7:00 pm

rosbife comido, pergunto a meu pai no abraço de despedida: “pai, gostou do seu rosbife?”. ele não respondeu, mas também não largou o abraço. pensei ter ouvido ele engolir um pequeno soluço.

 

heart – daddy – still Agosto 4, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 9:50 pm

Domingo é dia dos pais e eu resolvi, mulher casada, que vou fazer um almoço aqui em casa pro meu papai, minha mãe, minha irmã, minha avó e meus enteados. Vou fazer rosbife, o prato preferido de meu pai (ainda liguei pra minha mãe, pra tirar dúvidas…). Me dá um estranho prazer isso de chamar meus ascendentes para a minha mesa. A coisa da inversão de papéis, passar de ser a alimentada para ser aquela que põe a comida no prato. Ando estranhamente feliz com essas ocasiões, quando consigo juntar a família (minha ou a de meu marido) em torno da mesa. Faço planos, trabalho feliz. Parece que me sinto poderosa, matriarca, aglutinadora.

Aí eu combinei com minha enteada de irmos ao shopping no sábado comprar um presentinho pra ela e o irmão darem ao pai. E eis que, do alto dos seus seis anos ainda incompletos, ela me fita e dispara “tem richards no plaza, nine?”. Então, depois do golpe já imaginado na minha conta bancária,  eu entendo: não, eu ainda não estou pronta pra inverter, ainda quero que meu papai me dê presente no dia das crianças. De preferência da Richards.

 

dona da casa Agosto 3, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 9:37 pm

amanhã a nova empregada começa a trabalhar. no processo entre a saída da anterior e a chegada da nova, caiu a ficha de que eu não sei orientar empregadas. tenho dificuldades em dar ordens, mandar fazer isso ou aquilo, assim ou assado, e acabo ficando calada, o que é um grande erro.

e me dei conta de que essa minha inabilidade decorre do fato de que, desde que eu me entendo por gente, a casa da minha mãe sempre teve a mesma empregada. sandra é quem sabia onde ficava tudo, o que fazer pro almoço, se era pra fazer feijão ou se era ou não dia de trocar as toalhas. era raro eu ver mamãe dar ordem na casa; ela chegava, saía, a e coisa andava toda no piloto automático.

sem perceber, a gente importa a casa dos pais, né? mesmo jurando que vai fazer tudo diferente.

 

defasada Julho 16, 2009

Arquivado em: agora falando sério... — mascomoeuiadizendo @ 4:42 pm

tô ficando nervosa com a quantidade de ferramentas de comunicação internética. antes era o blog, e então o fotolog. lembro quando o orkut apareceu, e depois veio o facebook e todo mundo começou a conversar ao mesmo tempo na internet de um jeito muito diferente do que eu conversava na era do icq e depois do msn. aí foi a moda do twitter, agora tem o tumblr. meu marido vê seus emails pelo iphone.

e eu, que sou organizada, queria que ainda vivesse na época em que telefone era pra telefonar, papel era pra escrever, e cada coisa tinha o seu lugar.

parece que quanto mais interagimos ao mesmo tempo agora, menos eu tenho a dizer.